Antônio M. Fontoura
O conhecimento cientÃfico é caracterizado pelo uso de métodos rigorosos, o que permite obter um tipo de saber sistemático, preciso e objetivo. Ele busca descobrir relações universais e necessárias entre os fenômenos observados ou estudados pela ciência para, então, poder prever acontecimentos e agir sobre a natureza de maneira mais segura. Ele resulta da ruptura com o senso comum e com o conhecimento vulgar.
A ruptura com o senso comum teve sua origem no Iluminismo, no século XVII. Aos poucos, a confiança na razão substituiu a aceitação dos dogmas, mitos e fatalidades. Porém, a busca da verdade por meio das “luzes” foi permeada por ideologias. O poder da ciência transformou-se num novo dogma e, a partir do positivismo lógico, ela passou a dispensar qualquer fundamento epistemológico. Naquele contexto, a medição dos resultados utilitários da ciência parecia ser mais importante que o questionamento das suas origens.
No campo do design algo semelhante ocorreu. Existem relações estabelecidas entre o conhecimento cientÃfico, o design e o senso comum. A manufatura de muitos dos objetos, utensÃlios e ferramentas criadas pelo homem, por muito tempo, foi baseada no uso do senso comum. Com a Revolução Industrial, ocorrida no século XIX, os meios de produção passaram a exigir um planejamento mais elaborado. A aplicação da ciência, em forma de tecnologia substituiu o “acaso” (nada ocorre por acaso!) do artesanato.
Nos anos de 1920, alguns integrantes da escola Bauhaus já haviam desenvolvido teorias - e.g. da cor e da forma - atrelando-as à s questões econômicas, polÃticas e sociais. A Bauhaus propunha integrar a arte ao cotidiano. Mesmo assim, a produção de conhecimentos teóricos que tentavam justificar certas decisões envolvendo os projetos por meio de uma lógica já era tida como uma forma de trabalho. No design, a aproximação com a ciência ocorreu por meio da aplicação de métodos rigorosos no desenvolvimento dos projetos, o que objetivava a produção de novos conhecimentos. A intuição que, até então, era um processo bastante comum na concepção de objetos, foi deixada de lado.
Sob um ponto de vista puramente funcionalista, ao substituir gradativamente as concepções artÃsticas por princÃpios cientÃficos, o design tornou-se autônomo como atividade responsável pela criação e desenvolvimento de produtos. Isso ocorreu após a Segunda Guerra Mundial e o seu maior sÃmbolo foi a Escola Superior da Forma de Ulm - HFG. Na década de 1960, a HFG de Ulm se diferenciava claramente das outras escolas de desenho que, por se prenderem à tradição artÃstica, tinham dificuldade de distinguir o design artesanal do design industrial.
Com um interesse especial nas relações entre ciência e desenho, a Escola Superior da Forma abrigou o desenvolvimento de pesquisas que envolviam disciplinas cientÃficas, visando a adoção de seus respectivos métodos no processo de criação de projeto. Entre essas disciplinas destacavam-se a cibernética, a heurÃstica, a psicofÃsica, a ergonomia e a antropologia. Os debates permitiram sistematizar, por meio de agrupamentos, diversos métodos passÃveis de serem aplicados no momento de desenhar os produtos. Havia um enfoque matemático predominante cuja intenção era acometer metodologicamente o verdadeiro processo de configuração dos produtos.
Ainda nos anos de 1960, o aspecto da racionalização no design foi fomentado diante das novas possibilidades tecnológicas apresentadas pela indústria. Foi nesse perÃodo que autores como Geoffrey BROADBENT, Christopher JONES, Bruce ARCHER, Morris ASIMOV e Christopher ALEXANDER iniciaram um estudo teórico sobre os aspectos da metodologia e da sua aplicação no design e na arquitetura. O fato terminou por influenciar fortemente as novas gerações de profissionais dessas áreas.
A linguagem formal resultante da aplicação dos métodos desenvolvidos e adaptados pela HFG de Ulm, rapidamente se transformou num novo princÃpio de estilo, o chamado “funcionalismo ulminiano”. A HFG foi uma instituição modelar que influenciou diversas outras, consolidando as concepções do design orientado pela ciência e pela razão. No Brasil, o ideário de Ulm encontrou acolhida na Escola Superior de Desenho Industrial da Guanabara - ESDI. E esta, por sua vez, serviu como referência para outras escolas brasileiras criadas nos anos de 1970 e 1980. A concepção resultante da aproximação do design com a ciência passou a ser conhecida como “design moderno”. Esta foi, segundo os designers funcionalistas, a expressão mais apropriada para designar os projetos por eles desenvolvidos.
Nos anos de 1920, a Bauhaus tinha como ideal associar a arte e a técnica na construção de um mundo mais harmônico. Este ideal foi praticamente ignorado pelos meios de produção e sufocado pelo regime nazista ascendente na época. Na década de 1960, a HFG de Ulm tentou dar continuidade aos ideais da antiga Bauhaus. No entanto, rejeitou as tendências artÃsticas em prol dos fundamentos cientÃficos. Sob a influência - direta e indireta - das obras de Teodor ADORNO, Max HORKHEIMER, Hebert MARCUSE e Walter BENJAMIM, foram desenvolvidos, na Escola de Ulm, estudos de design em torno da sua função social. Esses estudos promoveram uma crÃtica mais contundente à estética dos artigos de consumo. Porém, a posição crÃtica adotada pela escola não possibilitou um desenvolvimento libertador em relação ao poder do capital e acabou por aumentar a distância entre a teoria e a prática do design.
Mas a aproximação do design com a ciência foi colocada em dúvida nos anos de 1980, assim como a adoção dos métodos no design. A relevância deste questionamento só adquiriu verdadeira importância quando o “Nuovo Design” começou a ganhar terreno. Naquela ocasião, iniciava-se no campo do design, principalmente na Itália, um processo de mudança de paradigmas na maneira de se conceber o produto. Até os anos de 1970, os métodos utilizados eram de “corte dedutivo” isto é, partiam de uma visão geral do problema e chegavam a uma solução especÃfica. O “Nuovo Design” passou a agir cada vez mais de forma indutiva, percorrendo um caminho inverso ao dos métodos dedutivos. Esta nova maneira de se conceber os produtos foi denominada genericamente de pós-modernista. Dessa nova visão a respeito da concepção do design foram resgatados alguns valores deixados de lado pelo excesso de racionalização nos projetos. Foram redescobertos os valores intuitivos do pensamento, a semântica nos objetos, a emoção e o sentimento.
Na atualidade, está ocorrendo uma ênfase no questionamento dos preceitos da ciência, de seus métodos e acima de tudo, da razão. Isso se deve a uma importante conjugação de fatores como o acelerado desenvolvimento das comunicações - que vêm derrubando as fronteiras do espaço e do tempo - e o surgimento e consolidação dos meios eletrônicos e informatizados aplicados à produção. Também ocorreu uma mudança de enfoque, passando da produção para o consumo e a informação. Para completar, as recentes transformações polÃticas, sociais e econômicas ocorridas no mundo fizeram surgir uma sociedade pós-industrial e uma cultura pós-moderna.
A controvérsia entre o moderno e o pós-moderno trouxe novamente à tona esta discussão. A condição pós-moderna é envolvente e a arte, a arquitetura e o design, como manifestações da cultura, não lhe escapam. Abriram-se assim novos horizontes para o design bem como para a própria ciência. Pode-se dizer que a pluralidade do design contemporâneo faz com que ele mantenha ligações diretas com a arte, com a ciência e com o senso comum. Relaciona-se simultaneamente com a produção artesanal, com a produção industrial e com a produção artÃstica. Hoje, mais do que nunca, o design não é arte nem ciência, mas com elas mantém Ãntimas relações.
Antonio Martiniano Fontoura
Desenhista Industrial, Mestre em Educação pela PUCPR, Doutor em Engenharia da Produção pela UFSC e Professor nos Cursos de Design da PUC-PR, UFPR e CEFET-PR.













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