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ABC Design Award 12

A Síndrome d’O Pensador

o-pensador

Chico Homem de Melo

Pergunta: Como é que se pensa?

Resposta: Com a cabeça, ora bolas.

Quando a questão é entender de que modo se processa o pensamento, um ícone já responde por nós: O Pensador, a magnífica escultura de Auguste Rodin, de 1906. Ela faz parte do inconsciente coletivo da civilização ocidental do século XX. Não há dúvida possível: nosso pensamento se faz na cabeça, quando estamos ensimesmados, iguaizinhos ao Pensador.

Desfazer esse equívoco não é tarefa fácil para quem trabalha com produção de linguagem – e mais ainda para quem trabalha com ensino de produção de linguagem.

O pensamento não se faz na cabeça, se faz na produção da linguagem. É no corpo-a-corpo com a linguagem que as ideias são geradas. Isso explica porque precisamos escrever, falar, cantar, dançar, desenhar, pintar, fotografar, ou o que mais se queira, para que nossas ideias ganhem existência.

Trabalhamos com design. Somos produtores de linguagem. Para começar a projetar, normalmente pesquisamos sobre o problema a ser enfrentado, recolhemos dados. Quando chega a hora de propor a solução projetual, se ficamos pensando só com a cabeça, não saímos do lugar.

Mas como começamos a projetar se não temos ideia nenhuma? É exatamente assim, projetamos sem uma ideia formada sobre como vai ser a solução. É desenhando, escrevendo, expressando alguma coisa – qualquer coisa – de alguma forma – qualquer forma – que as ideias vão sendo lentamente esboçadas, vão ganhando contornos por entre as névoas da linguagem.

A arquitetura tem uma longa tradição desse pensamento que emerge da névoa. É o croqui, um rabisco impreciso, uma forma beirando o ininteligível. Aliás, ele costuma ser efetivamente ininteligível, a não ser para o autor. Descendente da garatuja infantil, ele é ainda um mar de possibilidades; ao mesmo tempo, já é um esboço de pensamento projetual. Importante: o croqui não é a descrição de um pensamento nascido na cabeça, ele é o próprio pensamento ganhando forma. Ele precisa ser feito, re-feito, re-re-feito, até que a nitidez de seus contornos vá aumentando. Do caos primordial, uma ordem aos poucos vai surgindo e adquirindo consistência.

Publicitários também têm um recurso para resolver esse problema, a clássica brain-storm. A tempestade cerebral nada mais é do que transformar em linguagem qualquer faísca de pensamento que aflore à boca; depois da tormenta, recolhemos os detritos, buscando no meio deles os caminhos mais promissores. A tempestade é dita cerebral, mas de fato é uma tempestade de expressão. Uma brain-storm não se faz em silêncio. Pelo contrário, é a enunciação que coloca em movimento o trem da produção de linguagem.

Para os psicólogos, em particular para os freudianos, a chave do processo terapêutico é simples: falar. É falando sobre si mesmo e sobre seus problemas que eles vão ganhar existência real, e poderão ser enfrentados. Enquanto não virarem linguagem, nada feito. Outras vertentes terapêuticas defendem que essa expressão não precisa ser só por meio do verbo, pode ser por meio de quaisquer linguagens, a visual entre elas.

Artistas visuais costumam saber muito bem que as ideias não surgem na cabeça. É por essa razão que muitos deles mantêm um caderno de anotações. Trata-se de um recurso análogo ao da brain-storm, mas uma brain-storm solitária, na qual o interlocutor é o caderno. O mais célebre deles talvez seja o de Picasso. A capa do caderno comprado na papelaria já trazia impressas as palavras CAHIER APPARTENANT À. Num manuscrito irregular, ele acrescentou: “Je suis le CAHIER APPARTENANT À Monsieur Picasso peintre”. “Eu sou o caderno de Picasso!” Ele sabia que o caderno não era um simples receptáculo de ideias, mas tinha voz própria. Brain-storm solitária? Nem tanto. No final das contas, são efetivamente duas vozes conversando.

Projetar é aventurar-se pelos labirintos das linguagens. Essa viagem não se faz sem riscos (para nós, designers, riscos aqui tem sim duplo sentido). Em alguns momentos, pode parecer que estamos tateando às cegas. É fato, mas é por meio desse percurso por vezes errático que chegaremos a algum lugar. Há quem tenha horror a sentir-se perdido. Não combina com o perfil do produtor de linguagem. Alguma dose de desorientação é sempre saudável.

O pensamento não está pronto na linguagem, nem tampouco pronto na cabeça. Ele se forma a partir do encontro das duas vozes. Esse encontro é a real vertigem do pensamento. Iniciar um corpo-a-corpo com a linguagem é iniciar um percurso do qual não sabemos o fim. Aí está a sedução da profissão. Não vamos ao papel – ou à tela do computador, não importa – com uma ideia pronta, para simplesmente executá-la por meio da linguagem. Vamos para um salto no escuro cujo resultado só saberemos mais tarde, ao final do processo.

Muitos sofrem da Síndrome d’O Pensador: acreditam piamente que pensamos com a cabeça. Aqui vai uma receita infalível: não ficar quieto num canto, mão no queixo, pensando, pensando, como faz O Pensador há mais de um século. Desse jeito as coisas só pioram. Para o projeto aparecer é preciso começar a projetar. É verdade que ele costuma aparecer tosco, feio, disfarçado, escondido no meio de outras coisas; às vezes aparece como quem não tem nada a ver com isso. Mas ele sempre aparece, pode confiar.

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